Memórias do velho escravo Felício

Depoimentos de grande valor histórico e elucidativo que contribuíram aos Botelhos, o título e prerrogativa de fundadores da cidade de São Carlos do Pinhal.

Carta datada de Jaú, 11 de agosto de 1917.

(Trecho de carta de Dr. Paulo Inglez de Souza, advogado e jornalista colaborador do "Correio da Manhã", do Rio de Janeiro)

"As antigas sesmarias da família Arruda Botelho,a abertura da fazenda desse nome pelo pai do nobre titular, a construção da estrada de ferro por ele e seus parentes, a transladação da imagem de São Carlos Borromeu, que deu o nome à Vila e futura Cidade e ficou sendo o seu Padroeiro, são fundamentos incontrastáveis dessa conclusão. O registro em 1855 das terras de Jesuíno José Soares, em que se faz expressa menção do "patrimônio de São Carlos do Pinhal", põe termo definitivo e cabal a essa questão. Merece aprofundado estudo e mais larga biografia essa figura singular de Patriarca Paulista - verdadeiramente simbólica da História e formação de São Paulo, - que foi Antonio Carlos de Arruda Botelho, Conde do Pinhal. Nele se reuniam, no mais alto grau, numa sinergia admirável que sobremaneira as exalta e torna ainda mais evidente, todas as virtudes dos seus grandes Maiores, da "raça de gigantes" como apelidou Saint-Hilaire à dos Bandeirantes e dos "Nobilíssimos Arrudas Botelho e Sampaios" a que se refere Pedro Taques".

"Ilmo Snr. Antonio Carlos Botelho

Segue, o Santo retrato de seu avô, que o snr me pedio para mandar. Nem o snr (acha falta) que é o neto, não acha tanta falta de seu avô como eu. Eu entrei em companhia de seu avô quando elle cazou-se com D.Francisca Tehodora Cohelho. Eu estimava esse casar como se fosse pae e mãe meu. Deus perdoe algum erro delle e della que tenha sua alma no Glória. Eu mais duas rapariga sendo uma irmã minha a Raque e Caçemira seu avô cazou com sua avó, estabeleceu em Piracicaba um armazém de seccos e molhados. Eu de tanta atividade fui copero delle hia arrumar quarto delle encontrava cinco mil reis aqui - dez acolá. Eu sempre dizia a elle eu tomo conta daqui acho guardo vem outro vai o carrega e eu fico comprometido. Depois elle acho tãi sufficiente a minha pessoa me poz para cacheiro de barcão na loja. Eu quando era noite entregava a chave da loja a elle e chegava cedo eu abria a loja espanava e depois sentava na cadeira como um fidalgo a esper de quen viesse comprar. Um anno levei esta vida assi depois elle abrio uma padaria eeu com um preto que elle tinha. E ahi ajustou um mestre francez para nos ensina a fazer pão dahi 8 mez seu tio defunto snr João Carlos foi la na caza do Conde para cazar-se com D.Mariquinha coelho. Então elle formou uma viagem até Limeira e as onze horas da noite cheguemo no Pinhal seu brisa avo falou o que elle faz do negocio. A que for molhado eu vendo e a loja muda na Araraquara. Seu brisa avo respondeu ahi tropa e carro ahi tivemo dos dias e peguemos a tropa e carro e elle chegou la vendeu a padaria e o armazém e a fazenda imfardemo e levamo para Araraguara. E seu tio ficou mal com elle um anno. Os dois já morreu Deus tenha sua alma na Gloria seu brisa avo tinha plantdo cinco mil pé de café e lidava com canna e algodão. Depois invernou a cannavial a Jesuíno de Arruda que era tropeiro. Eu quando tinha 14 annos elle achou sufficiene pra ser feitor eu chorei nos pez delle que não queria ser feitor mas elle diss que escravo faz o que a senhoria manda.

Dahi a cinco mez e comprou 6 escravo a 11 mez compro 16 escravo 12 dahi a doze mez 28 escravo sendo de rapariga Joaquina minha mulhe para ser criada de Sinhá. Elle foi no Rio comprar escravo foi deixou a boa e volta encontra-a morta. Su brisa avo quando entregou a fazenda a seu avô deixou no testamento as cocaios(para) se elle morrer para por a capela de snr são Carlos nos cocaios dahi a 6 mez elle morreu. Ahi seu avô tratou logo disso fui eu elle mas trez rapazes cheguemos lá na rua s.Carlos mandou pica e fincou estaca e foi embora quando foi 12 hora estava acabado a picada elle pareceu lá ahi midimo deu dous alqueire de mata rocemos queimemo destoquemo. Eu fui companheiro de abrir a fazenda de seu pae fui companheiro de abrir a fazenda S.Antonio,

fui companheiro de abrir o parmitar

fui companheiro de abrir a fazenda serra

fui companheiro de abrir a fazenda boa vista

fui companheiro de ajuda criar 13 filhos.

Trabalhei muito com a intelilgencia esperteza quen eu não esperava dessa ingratidão que me fizern dou graças a Deus Dr. Cristiano me da um pedacinho de terra para esper que vocês socoran com alguma couza. Eu quando enicei a com seu pae elle tinha Só um preto quanto quem que ajudou comprar quando deu a liberdade elle estava com mas de quinhentos preto quem ajudou comprar

Aceite muitas lembranaças minhas e de muitas lembrança a todos dahi.

Do preto velho amigo,

Felício"

Parecer de Dr. Eugênio Egas sobre a carta escrita pelo velho escravo Felício:

"Apesar de sua avançada idade, ainda conserva plena lucidez de espírito e uma assombrosa memória, própria dos velhos da "terceira dentição", como dizia, o Senador Carlos José Botelho, aos noventa e três anos de idade, cujas reminiscências do passado, eram também de assombrar, falhando, entretanto, em alguns fatos mais recentes."